É possível tornar o cérebro imune ao câncer?

O veterinário Manuel Valiente há 10 anos persegue um dos maiores assassinos conhecidos. Uma em cada três pessoas que leem essas linhas sofrerá câncer ao longo da vida, porém, mais da metade será curada. O pior pode acontecer se esse tumor primário conseguir se expandir para outro órgão, um processo conhecido como metástase que causa nove em cada dez mortes por câncer, o verdadeiro assassino desta doença.

Valiente passou de tentar curar animais em uma clínica veterinária para se especializar em neurociência. Seu objetivo era entender a complexa migração de células para formar o córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro, onde reside toda a complexidade da mente humana. “Quando nascemos, nosso cérebro ainda está em movimento; muitas células estão se movendo para criar circuitos neurais. Entendemos como as células nascem em uma parte do cérebro e acabam viajando para o córtex, o que é essencial para uma conexão neuronal adequada”, explica Brave, que mais tarde se mudou para o Sloan Memorial Cancer Center em Nova York para trabalhar ao lado Joan Massagué no estudo de outra migração: a das células cancerígenas pela corrente sanguínea em busca de um novo órgão no qual se estabelecer e causar metástase.

Brave, em 2015, liderou seu próprio grupo de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa do Câncer (CNIO) na Espanha. Após quase cinco anos de trabalho duro, ele acaba de receber uma prestigiada bolsa de estudos do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) no valor de dois milhões de euros para tentar impedir que o câncer entre no cérebro e cause metástases, algo atualmente ocorre com até 30% das pessoas com câncer, especialmente aquelas com tumores primários de pulmão, mama e pele.

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“A metástase cerebral é considerada uma sentença de morte”, explica o cientista. “Esses pacientes são até excluídos de muitos ensaios clínicos porque têm um prognóstico pior e um maior risco de falha no tratamento. Por isso, nem sabemos se os medicamentos contra o câncer que chegaram ao mercado nos últimos 20 anos funcionam contra as metástases cerebrais”, afirma o pesquisador.

Um de seus resultados mais recentes e promissores se deve ao uso de uma nova plataforma para redescobrir medicamentos. “O que fizemos foi criar um sistema para testar moléculas já aprovadas em amostras de pacientes com metástases cerebrais. Encontramos um e vimos que ele funciona muito bem em ratos. Ainda temos que publicar esses resultados, por isso não posso dizer qual molécula é, mas a mensagem é que as metástases cerebrais podem ser combatidas com drogas que já estão lá. A sentença de morte não é essa”, acrescenta.

O cérebro é um órgão muito hostil para o câncer, explica Brave: “Precisa de muita energia, dificultando as células cancerígenas a encontrar os restos de nutrientes. Também possui muito pouca capacidade de regeneração, projetada para evitar danos máximos. Isso é alcançado com a barreira hematoencefálica, que é como uma parede de sangue que não passa pela maioria das moléculas. Se algo entrar, ele foi projetado para isolá-lo ao máximo, para que não bloqueie funções vitais”, explica ele.

Neste ponto, Brave usa uma bela metáfora para descrever uma realidade horrível. Apenas uma em 99 células tumorais é capaz de superar todas as barreiras do cérebro e se estabelecer, apesar do ambiente hostil. “A única maneira de conseguir isso é modificar o microambiente. É o mesmo que uma pessoa que tenta viver no Ártico. Se revestir, pode aguentar um pouco, mas no final irá congelar. A única maneira de sobreviver por mais tempo é mudar o ambiente, usar gelo e neve para construir um iglu”, explica ele.

Há algum tempo, a equipe Brave do CNIO descobriu uma maneira de interromper o processo molecular que permite que as células tumorais se instalem no cérebro. Esse processo envolve a proteína STAT3, cuja produção é fundamental para desativar parte dos astrócitos, células cerebrais responsáveis pela proteção do órgão em caso de invasão. “Quando pensamos nas células cerebrais, sempre focamos nos neurônios, mas os astrócitos são as células mais abundantes no cérebro e seu estudo fez com que a visão neurocêntrica que dominava até agora caísse, porque foi visto que eles são astrócitos e não os neurônios que podem ter um papel fundamental em muitas patologias cerebrais”, diz o pesquisador.

Em 2018, sua equipe descobriu que a silibinina, um composto sintético extraído do cardo, retarda a progressão das metástases ao desativar a atividade da proteína STAT3 e impedir que os astrócitos sejam sequestrados pelo tumor. Os pesquisadores mostraram em um pequeno estudo com 18 pacientes com metástases cerebrais que esse composto quadruplica seu tempo de sobrevivência. Em três casos, as metástases cerebrais foram reduzidas até serem indetectáveis. “Agora, nosso objetivo é iniciar um verdadeiro ensaio clínico. Estamos fechando um contrato para obter financiamento e esperamos começar em 2020”, explica Valiente. Vários hospitais espanhóis e outros de vários países europeus colaboram no projeto.

Um dos objetivos do projeto Brave, financiado pelo ERC, é tentar intervir exatamente no momento em que a célula cancerígena atinge o cérebro e é fixada dentro de um vaso sanguíneo. “Se somos capazes de impedir que as células cancerígenas grudem no endotélio (a face interna dos vasos), evitamos as metástases. Agora, o que queremos é desenvolver uma terapia semelhante para as células endoteliais, para impedir a metástase. Tornar o cérebro imune a metástases. O esquimó não será mais capaz de construir a casa”, ele resume.

Fonte: El País.