Psicopatia e abuso infantil: como se relacionam na visão da ciência

É relativamente comum assumir certa relação causal ou determinante entre abuso infantil, seja físico ou psicológico e psicopatia. Mas e a realidade nessa crença, muitas vezes reforçada pelo cinema e pela literatura não científica?

Tentaremos lançar alguma luz sobre essa questão, revisando as conclusões mais relevantes extraídas dos estudos mais recentes a esse respeito.

Definindo psicopatia e abuso infantil:

Antes de tentar estabelecer qualquer tipo de relacionamento entre essas duas variáveis, é necessário limitar cada uma delas da maneira mais precisa possível. Em relação ao abuso infantil, tomaremos como referência a definição fornecida pela Organização Mundial da Saúde – OMS:

“Abuso ou maus-tratos físicos e/ou emocionais, abuso sexual, abandono ou negligência, exploração comercial ou outra, resultando em danos reais ou potenciais à saúde, sobrevivência, desenvolvimento ou dignidade da criança no contexto de uma relação de responsabilidade, confiança ou poder”.

Essa é uma definição especialmente útil, pois leva em consideração todas as variantes possíveis de abuso: físico, psicológico, sexual, exploração, abandono ou negligência.

Quanto à psicopatia, é um pouco mais complexo encontrar uma definição de consenso. O primeiro autor a mencioná-la foi Phillipe Pinel (1801-1862), que a definiu como “mania sem delírio”, referindo-se a pessoas que tiveram respostas emocionais inadequadas e apresentaram raiva impulsiva, mantendo sua capacidade de raciocínio intacta.

De acordo com o DSM, que manteve sua definição de psicopatia de maneira mais ou menos estável ao longo de suas várias revisões, a característica essencial do transtorno de personalidade antissocial (que considera equivalente a psicopatia, sociopatia ou transtorno de personalidade dissocial) é um padrão geral de desprezo e violação dos direitos de terceiros.

Esse padrão começa na infância ou no início da adolescência e continua na idade adulta e inclui os seguintes traços de personalidade: desinibição, agressão, irresponsabilidade, hostilidade, pettiness, deception, insensibilidade, narcisismo, manipulação e impulsividade.

Abuso infantil e suas consequências:

Dada a dificuldade de encontrar estudos que estabeleçam uma relação direta entre abuso infantil e psicopatia, optamos por recorrer a diversos trabalhos que mostram as diferentes consequências que o abuso infantil pode ter sobre a personalidade e o comportamento, que isso nos permitirá tirar algumas conclusões a respeito de sua relação com transtorno antissocial psicopático ou psicopatia.

Consequências psicopatológicas:

Encontramos um bom número de estudos que mostram como o abuso infantil pode ter consequências irreversíveis, já que desde cedo o cérebro humano está em um processo de desenvolvimento e experiências traumáticas podem afetar o menor, tanto física quanto cognitivamente.

Shutterstock

Nesse sentido, podem ser observadas sequelas cognitivas, altos níveis de estresse psicossocial, dificuldades comportamentais e problemas sociais que podem ser associados a diferentes psicopatologias: comportamento antissocial, transtorno de estresse pós-traumático, isolamento social, transtornos de personalidade, esquizofrenia, uso de drogas e crime, comportamentos suicidas e transtornos de ansiedade e depressão.

Consequências de acordo com o tipo de abuso:

O abuso físico, emocional ou sexual parece ter repercussões mais sérias do que o abuso por negligência ou abandono, uma vez que as ações mais diretas de abuso podem ter uma influência maior do que a falta de atenção ou a não satisfação de necessidades básicas.

Outros estudos afirmam uma pior saúde mental em vítimas de abuso sexual infantil do que em outros tipos de abuso, aumentando a probabilidade de desenvolver distúrbios de personalidade nessas vítimas em até quatro vezes do que no restante.

Para Johnson, é notável a associação de risco de desordem limítrofe em vítimas de abuso sexual e desordem antissocial em abuso físico.

Por outro lado, trabalhos como os de Tricket, estabelecem uma relação direta entre a experiência do abuso e suas consequências. Fatores como a duração do abuso, o grau de violência, a figura do pai como agressor ou a precocidade do abuso determinam a gravidade do diagnóstico.

Outros estudos relevantes:

Para Cleckley, as características de uma pessoa com comportamento psicopático, como ausência de remorso, incapacidade de amar, ausência de reações afetivas básicas e comportamento irresponsável, são as mesmas características encontradas em uma pessoa que foi abusada durante a infância.

Outras conclusões interessantes são as apontadas por Adrian Raine, que estabelece como o conflito familiar pode se tornar um preditor de comportamento criminoso e caráter agressivo e antissocial.

O mesmo acontece com o estudo de Chapman e Scott, que mostrou como as experiências de abuso infantil aumentam o risco de ser abusivo em 30% na idade adulta, transformando o abuso em comportamento aprendido.

Mediação genética:

De especial relevância é o estudo de Caspi A, em relação à predisposição genética relacionada ao comportamento antissocial. Esses autores encontraram um polimorfismo funcional no gene que codifica uma enzima cerebral envolvida na resposta a situações aversivas e ligada ao comportamento violento.

Essa enzima pode exercer um efeito moderador nos efeitos ambientais do abuso, uma vez que crianças vítimas de abuso com altos níveis dessa enzima eram menos propensas a desenvolver um comportamento antissocial em sua vida adulta.

Abuso infantil como preditor de psicopatia em adultos:

Depois de tudo mencionado, parece evidente que o ambiente sócio familiar conflituoso e os maus-tratos na infância são fatores determinantes no comportamento antissocial de adultos, aumentando significativamente o risco de sofrer de um distúrbio de personalidade no futuro e, em particular, um distúrbio psicopático.

Deve-se notar também que é o abuso físico e sexual que é percebido como um maior preditor para o desenvolvimento subsequente desse tipo de distúrbio.

De qualquer forma, é igualmente evidente que uma relação causa-efeito estável não pode ser estabelecida entre situações de abuso infantil e distúrbio antissocial/psicopático.

Essa variabilidade pode ser explicada em grande parte (embora não em sua totalidade) pela existência de uma predisposição genética ligada ao genótipo que poderia atuar como um fator modulador entre as duas variáveis.

Fonte: Psicopedia.